Imprensa

A cia. de comédia Os Melhores do Mundo é um grupo teatral cômico.

Sediado em Brasília, o grupo criou, produziu e montou diversos espetáculos, todos próprios, e têm estado em cartaz em todo país.

Abaixo duas matérias marcantes sobre o grupo.

Os Reis do Rá Rá Rá
Carlos Marcelo 15 de abril de 2009

Turnê agendada pelo Brasil até julho de 2010, mais de 30 mil cópias vendidas do DVD, fenômeno na internet, sessões extras todo fim de semana, pizzas, cervejas e fotos, muitas fotos com os fãs. Conheça a trajetória, os bastidores e os planos do maior grupo brasiliense da década: a companhia de comédia Os Melhores do Mundo

A longeva convivência da dupla Mick Jagger e Keith Richards, a maquiagem e as caretas do Kiss, as performances dos Doors em grandes palcos de Los Angeles, as poses das bandas de Brasília na hora de fazer fotos embaixo do bloco da quadra… A comparação com a trajetória de roqueiros é recorrente em conversas com os integrantes dos Melhores do Mundo. Rock in riso? Faz sentido. Depois do fenômeno do quadro Joseph Klimber, da peça Notícias populares, que teve mais de 1milhão de acessos na internet, a companhia brasiliense vive em ritmo de turnê. Não cabe mais em teatros pequenos nem de médio porte.

Microfones grudados no rosto, se apresentam em casas noturnas, centros de convenções e salas de espetáculo com capacidade para até 5 mil espectadores. E não é suficiente: sempre há sessões extras. “Joseph Klimber virou ídolo. Foi uma explosão, catapultou a nossa carreira nacional e aumentou todas as perspectivas de futuro da companhia. É espetacular, mas é assustador”, analisa Adriano Siri. “Tudo é muito estranho: a gente queria ser um grupo nacional e conseguiu. Mas só quando você chega ao topo percebe que existem outras montanhas: são tantas as possibilidades que a gente bate um pouco a cabeça”, admite Welder Rodrigues.

A prova de fogo, que fez da companhia brasiliense mais do que um grupo de um só sucesso, veio com a ótima acolhida nacional para outro espetáculo, Hermanoteu na terra de Godah, também impulsionado pelo que eles chamam de boca a boca virtual, via YouTube. O plano de voo foi estabelecido: seguir pelo Brasil, nos próximos anos, com alternância de montagens para apresentação do variado repertório da companhia. Mesmo que ainda haja alguma confusão por parte do público. “Muita gente de outras cidades vai achando que verá um espetáculo com todos os quadros conhecidos juntos, uma espécie de Best of…”, conta Ricardo Pipo. Semana passada, em Porto Alegre, eles apresentaram Hermanoteu; neste fim de semana estão em Uberlândia com Notícias populares. Na semana que vem, interrompem o rodízio para voltar a Brasília e reviver Sexo — A comédia, “nosso melhor espetáculo”, na opinião de Adriana Nunes.

Até o fim do mês, eles passarão por Londrina, Maringá e São Paulo. Depois, seguem para Curitiba, Cuiabá, Campo Grande. Em julho, incluem Melhores do Mundo Futebol Clube na roda-viva. No início de 2009, a agenda da companhia brasiliense já tem datas preenchidas até 2010, mais precisamente “até o Brasil perder na Copa do Mundo”, brinca o produtor Carlos Henrique, o Zizica. Ele não revela o valor do cachê do grupo, mas conta que está no patamar de artistas do primeiro time da música brasileira, como Maria Rita e O Rappa, que não saem de casa por menos de R$ 50 mil. “Para onde a gente vai, bate recorde: são números realmente superlativos e inéditos para uma companhia de teatro”, comemora Zizica.

Da van para o palco
“O que a gente sempre almejou não podia ser mais real: toda sexta a gente sai de Brasília, pega o avião, desembarca em uma cidade diferente onde tem alguém segurando uma placa com nosso nome. Entramos na van, seguimos para o hotel, e de lá para o palco. E é verdade: as listas de exigências com número de toalhas existem!”, brinca Siri, citando um dos clichês do mundo roqueiro. A comparação agrada a Welder, recém-chegado do show do Kiss: “A gente está para o teatro não para a música clássica, mas para o rock. Trabalhamos muito para fazer o público enlouquecer”.

Nem sempre o êxito acompanhou o projeto de Os Melhores do Mundo se transformarem em Os Maiores do Brasil. Muito pelo contrário. Houve ao menos uma época, quando o grupo tentou se radicar no Rio de Janeiro, de “fracassos retumbantes”, na definição de Siri. Muitas sessões foram canceladas por falta de público. “Ali foi o momento mais difícil”, conta Adriana, fundadora do grupo, com Welder e Pipo. “Porque, em Brasília, a gente sempre teve casa cheia. Depois, também no Rio, tomamos outro baque e decidimos voltar para cá.” A dificuldade serviu para reforçar um sentimento “que é maior do que amizade, é fraternidade”, define Jovane: “Eu sinto necessidade de estar perto desses caras”.

Apesar do sucesso no Zorra total dos personagens Jajá e Juju, protagonizados por Welder e Adriana, todos afirmam que a televisão não leva público ao teatro. Pelo contrário. “A influência é de, no máximo, 10%”, avalia Jovane. Ele é o único que continua sob contrato com a Rede Globo: redige e protagoniza o quadro do Zé Pimenteira no humorístico que vai ao ar nas noites de sábado. “Os meninos não quiseram ficar, é cansativo, mas eu gosto de poder escrever um texto que vai ser ouvido por 20 milhões de pessoas”, justifica Jota, como é chamado pelos colegas.

Nas andanças pelo Brasil, puxam papo com motoristas de van e taxistas para saber os assuntos em voga naquela cidade e dão um jeito de encaixá-los no espetáculo. Em Brasília, com a intensa vivência crítica, fica tudo mais fácil. O novo projeto de Niemeyer, as gafes de Roriz, a sanha dos distritais, a fila do BRB, o time do Gama... tudo é motivo para piada. Em momento antológico da peça América, citavam o projeto mirabolante de um trem-bala que ligaria as capitais do Brasil e de Goiás, antes de arrematar: “Gente, pra que tanta pressa para chegar a Goiânia?”.

Sobre o futuro, sobra otimismo. Após divergências com a gravadora Warner, que lançou Notícias populares, agora pretendem produzir e distribuir os próprios DVDs — Hermanoteu será o primeiro da lista. Também finalizam licenciamento da marca Melhores do Mundo para cadernos, camisetas, agasalhos, mochilas. “Mas o nosso forte é o teatro, e vai continuar sendo o teatro”, ressalta Welder. Siri, diplomático, escolhe bem as palavras para definir a sua visão do que vem pela frente. “Nossa perspectiva é muito boa: estamos vislumbrando o conforto da perspectiva de envelhecer fazendo palhaçadas”. Jovane é mais direto: “Minha ambição é fazer desse grupo o maior da história do teatro brasileiro. Essa é a meta”.

Pipo, por sua vez, ilustra o futuro com uma proposta surpreendente de Victor, reconhecido por todos como o mais visionário ao bancar, ainda nos tempos de Teatro dos Bancários, que o grupo tinha que conseguir se apresentar no Canecão. Na sala de embarque do aeroporto de São Luís, Victor se virou para o grupo e propôs: “Por que não ginásios, hein?”. Os outros, meio entorpecidos de sono, nem tiveram tempo de retrucar quando ele continuou: “É, fazer o espetáculo em ginásios... tem muita cidade brasileira que não tem teatro nem casa noturna. A gente adapta o palco, cria uma estrutura, dá um jeito. Sou pela popularização. Pô, não seria legal que Paracatu pudesse receber Os Melhores do Mundo?”.

Garotos nacionais

2.350 apresentações nos últimos nove anos
1,7 milhão de espectadores no mesmo período
8 mil é a média de espectadores por fim de semana
32 mil cópias vendidas do DVD Notícias populares

Allen no DNA de Klimber

Jovane Nunes ficou impressionado com a perseguição sofrida por Harrison Ford em O fugitivo: “Esse cara não desiste nunca…”. Também guardou na memória a revelação que o assassino usava prótese no braço. Pouco depois, viu Um assaltante bem trapalhão, em que Woody Allen usa uma narração descritiva para realçar a ironia. Assim nasceu Joseph Klimber (“A vida é uma caixinha de surpresas”). Para Welder, corpo e alma do personagem, o sucesso se explica pela sedução do humor negro: “O humor é o erro”. Jovane completa: “O quadro é muito cruel. Mas é muito engraçado…”

Dias de suor e graça

Correio acompanha os bastidores da montagem de melhores do mundo futebol clube, dos primeiros ensaios até os aplausos finais

Primeiro dia de ensaios I, Teatro da Escola-Parque

Chove lá fora e a modorra do início da tarde parece contaminar o ensaio, ainda em marcha-lenta. Siri, de chinelos, e Jovane, jeans e camiseta, sobem ao palco para repassar um dos quadros de Melhores do Mundo Futebol Clube, a ser encenado no fim de semana na Sala Villa-Lobos. Victor, Welder e Pipo se esparramam nas poltronas. No palco da Escola-Parque, coração da Asa Sul, eles se sentem em casa. “Eu comecei aqui”, lembra Welder. Victor cita os shows que assistiu no local: “Vi a Plebe Rude tocando nesse palco”.

Primeiro dia de ensaios II, Teatro da Escola-Parque

Texto na mão, Adriana Nunes pega a caneta quatro cores e anota, em um caderninho de capa igualmente colorida, as demandas: verniz para colar bigode postiço, maquiagem para mãos e rosto... Alguém lembra: “Tem que ver como tá aquela peruquinha enrolada”, citando uma das cem perucas que o grupo guarda. Outro faz a ressalva. “Se o enchimento estiver fedorento, tem que lavar...”. “Ah, tem o da Juju”, ela responde, citando seu personagem, a cara-metade de Jajá, sucesso ano passado no programa de tevê Zorra total. A lista de Adriana só aumenta. “Seria bom se a gente tivesse um cavalo daqueles de carrossel. Acho que vende numa loja aqui perto, na W3…”, arrisca Jovane, antes de mostrar a foto de armadura que comprou na Grécia para usar em um espetáculo. Encarregado da parte logística das montagens, Marcello Linhos comenta com o repórter: “Já viu porque a gente fica com 400kg de bagagem para levar, né?”. Irmão de Adriana Nunes, Marcello Linhos é o integrante dos Melhores do Mundo que jamais entra em cena. Mas os outros fazem questão de ressaltar a importância do seu papel. “É o cara que resolve”, define Jovane. Linhos monta a iluminação, faz a sonoplastia, fica na mesa de luz durante a peça; nas viagens interestaduais, resguardado pelo anonimato (“o nosso Sombra”, diz Pipo), fica de olho em possíveis problemas, como a venda excessiva de cadeiras extras a ponto de comprometer a visão do espectador. Ex-guitarrista da banda de thrash metal Restless e tocador de viola, Linhos assina também a trilha sonora dos espetáculos.

Segundo dia de ensaios, Teatro dos Bancários

Quando o repórter chega ao teatro da 314/315 Sul, casa da companhia por 10 anos (1997-2007), o clima é de agitação. Enquanto Linhos faz ajustes de som e luz, os integrantes discutem a eficácia de uma cena. “Vou cantar a pedra. Esse quadro vai sair”, profetiza Jovane. “Esse quadro tá bom”, discordam Victor e Pipo. “Tomara: esse quadro já acabou. Vocês querem ressuscitar o quadro”, rebate Jovane. “Só você está tenso, Jovane”, comenta Victor. “O problema é que a gente não entende suas piadas, brinca Pipo. Há 14 anos o público entende, graças a Deus”, retruca Jovane.
A divergência não deixa resíduo. Eles continuam a afinar o esquete. Um fala: “Eu acho que a gente podia fazer assim, ó…”. Outro emenda: “É isso, é isso!”. A direção é coletiva, sem voz de comando, na base do consenso. Na sala vazia, há a onipresença de um espectador imaginário. E é com atenção total às reações desse rosto invisível que eles conduzem os ensaios. Preocupam-se inclusive em sincronizar o tempo e intensidade das risadas e aplausos com a entrada das locuções pré-gravadas.
Cada um em seu laptop, Siri e Welder conferem trechos do texto e detalhes da parte visual do espetáculo. Em vez de refrigerante, algumas cervejas matam a sede. Os cinco vão se revezando no palco, interrompidos pelo maior adversário dos ensaios: os telefones celulares. Mas as frequentes interrupções não provocam incômodos visíveis. “Onde é que a gente estava mesmo? Vamos fazer daqui em diante…”. De repente, Welder larga o computador e desata a abraçar os colegas. Ninguém entende nada, até que ele explica a intempestiva demonstração de afeto. “Hoje é o dia do comediante”. Mais abraços. “Ah, então, hoje ele é o cômico…”, emenda um deles, separando as sílabas da última palavra para realçar a obscena dubiedade. Mais gargalhadas.

Terceiro dia de ensaios, Sala Villa-Lobos

A fila cresce na bilheteria do Teatro Nacional. Pedro Henrique Ribeiro, 19 anos, estudante da Asa Norte, se aproxima para comprar ingressos. É um exemplo quase didático da nova geração de fãs da companhia: foi apresentado a Joseph Klimber no YouTube, assistiu Notícias populares, depois Hermanoteu. Agora, quer ver o novo espetáculo. Só há assentos disponíveis nas fileiras Y ou Z.
Do lado de dentro, já no palco da maior sala de espetáculos da cidade para o último ensaio, eles examinam, decepcionados, o painel que será utilizado no cenário: “Ficou lavado, muito ruim: vamos ter que fazer outro para a temporada em São Paulo, não tem jeito”. A contrariedade está estampada no rosto de Welder, que também padece com dores no joelho. “Hoje é um dia tenso”, admite. Jovane e Pipo encenam um dos esquetes, depois é a vez de Siri entrar em cena. Sentado em uma das poltronas, perna tatuada com o logotipo do grupo, Victor observa: “De hoje para amanhã essa cena vai mudar”. Eles já discutem a necessidade de abrir uma terceira sessão extra.

Primeira sessão de domingo, Sala Villa-Lobos

Gritos na multidão. Camisas suadas, fim de jogo. Enquanto Siri agradece ao público, atrás do palco Adriana já separa e ordena as roupas para a próxima apresentação. São sete trocas de figurino em 1h20. Eles saem de cena. Comentam a própria performance: “Eu esqueci alguma coisa?”, peocupa-se Jovane. “Hoje eu lembrei da Dilma!”, comemora. Fazem ajustes de ritmo para a segunda sessão. Acham que ainda falta óleo na engrenagem. A pergunta mais ouvida é: “Funcionou?” O que não funcionou, como a referência jocosa à morte do ex-deputado e empreiteiro Sérgio Naya, é sumariamente rifado. Linhos chega correndo, preocupado: “Tá dando microfonia, o som do microfone não está legal…”. Chegam também duas pizzas grandes, rapidamente devoradas no intervalo. Antes de atacar uma fatia, Victor pergunta: “Já abriu sessão extra?”. O produtor do grupo, Carlos “Zizica” Henrique, responde, com um sorriso imenso: “Já abriu e já vendeu!”.

Segunda sessão de domingo, Sala Villa-Lobos

A plateia começa a chegar. A maioria são jovens entre 20 e 30 anos, mas há muitos casais mais velhos e algumas crianças. No camarim da Villa-Lobos, enquanto conferem se há recados no celular, Os Melhores do Mundo jogam conversa fora. Comentam quadros antigos, alguns politicamente incorretos, dos Trapalhões e de Chico Anysio, que eles consideram “o grande ator do Brasil”. Contam, com orgulho, da homenagem que fizeram ao humorista durante espetáculo no Canecão. Na mesma sessão, estava o casal Fernanda Montenegro e Fernando Torres. “E o Roupa Nova”, lembra Jovane. Interrompem as lembranças e caem na gargalhada quando Pipo aparece de peruca e vestido, panela na mão, pronto para entrar em cena. Começa a sessão. As luzes se apagam e os celulares se acendem na plateia. Muitos espectadores permanecem com o braço estendido por 10, 15 minutos, filmando os quadros do início ao fim. Com cinco minutos, é Pipo quem arranca os primeiros aplausos em cena aberta. No controle da mesa de luz e som, atrás da plateia, Marcello Linhos tem uma cadeira mas não a usa – permanece o tempo inteiro em pé. O microfone volta a dar problemas, Linhos fecha a cara. Alheio ao imprevisto técnico, o público se esbalda. Gargalha com força e com vontade, mesmo nos momentos mais improváveis, como na cena em que Nietzche e Ritchie dividem a mesma piada.

Fim da segunda sessão de domingo, Sala Villa-Lobos

Minutos depois dos agradecimentos de Siri, as cadeiras extras são recolhidas e a banca montada para vender o DVD de Notícias populares fica apinhada. Na saída do teatro, o burburinho sobe a rampa: “Eles são incríveis!”, “Me amarrei!”, “Pô, só uma hora e 20 minutos de espetáculo!”, “Cara, tirei foto com eles!”. Lá embaixo, na lateral do palco, os integrantes do grupo saem para sessão de (alguns) autógrafos e (muitas) fotos. O resultado é conferido instantaneamente nas câmeras digitais. “Cadê o Jajá? Cadê o Jajá?”, procura uma garota, citando o personagem do Zorra total. Ela encontra Welder, que, na hora do flash, espreme os lábios e ergue o polegar, em gesto de positivo. Finda a foto, ele se despede com um “Legal, legal…” ou “Aííí…”. Dois adolescentes do Guará 1, Lucas Rabelo e Ricardo Wright, se aproximam. Desinibido, Lucas pede papel e caneta ao repórter para pegar autógrafos. Conta que aprendeu a encenar o trecho de Hermanoteu disponível no YouTube. Pediu dinheiro à mãe para ver o espetáculo. Nunca tinha entrado na Sala Villa-Lobos. “Me amarrei, mas não teve Joseph Klimber, véi!”, reclama para Welder. Siri chega e, amistoso, cumprimenta os adolescentes: “Olá, como vai, tudo bem?”. Lucas, 15 anos, corta a cerimônia e vai direto ao ponto, citando um dos personagens do ator: “Cadê o bigode do Saraiva?”.

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Chulos, Grosseiros & etc.
Dafne Sampaio

A bagunça do camarim parece domada, tranqüila, adulta. Frutas, salgados e água mineral estão intocados em uma mesa de canto e a televisão está sintonizada em um jogo de bocha para atletas com deficiência física. Não faz nem cinco minutos e a primeira piada surge rápida e incorreta. Assim é o camarim da Cia. Os Melhores do Mundo, sexteto de comediantes formado em Brasília que passou por São Paulo para apresentar, com casa cheia a duas sessões por dia, a peça Hermanoteu na Terra de Godah. Do lado de fora, uma fila começa a se formar duas horas antes do espetáculo.

Agora, no presente momento, quatro dos seis integrantes dão as caras. Todos estão beirando a casa dos 40 anos. O goiano Jovane Nunes, o mais falante, o carioca Victor Leal e os brasilienses Ricardo Pipo e Adriana Nunes, a única mulher do grupo. O marido de Adriana, o carioca Adriano Siri, está tirando um cochilo em outro cômodo da casa de shows, enquanto o brasiliense Welder Rodrigues, quando aparece, mantém-se calado. Logo ele, um dos mais conhecidos do grupo por participações no programa Zorra Total e por interpretar Joseph Klimber, esquete mais conhecido do espetáculo Notícias Populares, que chegou ao DVD por uma multinacional e vendeu surpreendentes 25 mil cópias. “É que falo muita m****, por isso sou treinado para não dar entrevistas”, confidencia gaiatamente antes de dar no pé mais uma vez. Então, podemos começar?

O grupo surgiu em 1995, confere? “É, estamos com essa formação desde abril de 1995. 21 de abril de 1995. Mas eu, o Pipo e o Welder já trabalhávamos em outras companhias”, explica Adriana, ao que Jovane interrompe e dispara: “Sabe que esse dia é feriado em Brasília?”. Todos caem na gargalhada. Aliás, todos são responsáveis por tudo nas produções do grupo, desde o texto até o figurino, passando pela sonoplastia, músicas, cenários e até a arte gráfica dos cartazes. “Quando o Siri entrou a gente logo percebeu que ia dar certo. Nossas opiniões batiam, bem como o que cada um acha e quer do humor, fora o talento de um que complementa o do outro. No começo, a gente lotava casas de cento e poucos lugares em temporadas de três ou quatro semanas. No meio do caminho já preparávamos a próxima peça e assim por diante. Teve ano que fizemos nove”, relebra Jovane e Pipo completa que “sem querer criamos rapidamente um grande repertório, e que é patrimônio nosso”.

Ele tem razão. O repertório da Cia. já possui cerca de 30 peças, sendo que metade foi escrita entre os anos de 1995 e 98. Atualmente, em turnês nacionais, apresentam apenas duas: Notícias Populares e Hermanoteu. A última que escreveram foi América, em 2004. “Mas a gente parou de fazer peça nova, pelo menos por enquanto. Temos que usar o nosso repertório. Aconteceu também que algumas peças foram canibalizadas. Piadas boas de peças antigas, que a gente não monta mais ou não gosta, foram colocadas em outras. Aprendemos isso com a VASP que fazia aquele negócio com as peças reutilizadas de aviões antigos”, e Jovane ri da própria piada.

Então, do nada, aparece uma garrafa de uísque. “Agora essa matéria sai!”. É Jovane puxando mais um coro de gargalhadas. “Olha, é que sempre fomos ambiciosos. Queremos mostrar nossas peças em todas as capitais brasileiras, criar peças para montar no exterior, usar mais a internet e fazer filmes. Com isso queremos marcar nosso nome na história da comédia brasileira. Queremos virar referência”. Modéstias à parte, o sexteto planeja transformar Hermanoteu em longa, principalmente após a experiência com o curta À Espera da Morte, produção caprichada feita em 2004, totalmente falada em russo e disponível na internet. Aliás, falando na rede. “Sempre deixamos filmar nossos espetáculos porque esses vídeos na internet são um auxílio gigantesco de divulgação”, diz Jovane, o homem que já foi frentista de posto de gasolina, ajudante de pedreiro e beneficiador de arroz até passar no vestibular de Artes Cênicas sem nunca ter visto uma peça. “Por exemplo, fizemos o esquete do Joseph Klimber no Programa do Jô e esse vídeo já foi visto umas 20 milhões de vezes no YouTube. Na época, a gente já viajava o Brasil, mas depois passamos de teatros para casas de shows”, agora quem fala é Victor, que também é baterista, formou-se em Administração de Empresas e já foi dono de açougue.

A partir de 2001, quando a Cia. saiu do eixo Brasília-Rio de Janeiro-São Paulo para ganhar o Brasil, os números foram aumentando exponencialmente até chegar a 300 comunidades no Orkut, recordes de venda no Canecão e aos 220 mil espectadores de suas peças no ano de 2008. Por todo sucesso, o sexteto sempre estranhou um certo silêncio a seu respeito. “A gente gosta da imprensa”, diz Victor abafando o próprio riso, “mas é que vivemos à margem. Não somos cult. Não somos a Banda Calypso. Ninguém reconhece a gente na rua e, ao mesmo tempo, lotamos qualquer casa de show ou teatro em todo o país”. Coincidência ou não, o contra-regra chega calmamente com uma arma e mostra para alguém. “Aquilo é objeto de cena, viu? Fique calmo”, tranqüiliza um debochado Jovane. “Tá tudo bem, viu? É a imprensa. Daqui a pouco a gente chama você de novo”, e o contra-regra some rapidamente. Do outro lado da sala, Pipo, que já foi secretário de uma escola de alfabetização e locutor de rádio, faz exercícios vocais, preparando a garganta e a voz para interpretar Hermanoteu, uma paródia bem brasileira de Jesus Cristo. “Nós somos os famosos não-famosos”, conclui Jovane. Falta menos de uma hora para a peça começar.

Abre parênteses para um caso revelador da dificuldade que instituições, públicas e privadas, têm de rir de si mesmas na Pátria Mãe Gentil. Com a palavra, Victor. “Fomos processados por uma faculdade privada de São Paulo porque uma vez no esquete Assalto a Gramática, que é Notícias Populares, o bandido falava assim: ‘Eu quero um carro blindado, a imprensa reunida e um advogado que não seja formado pela…’, tal faculdade. O mais engraçado é que no dia da audiência, o nosso advogado era formado pela tal faculdade e o deles era formado por uma outra, mais tradicional. Adivinha? O nosso perdeu!”. Para não ter que pagar uma quantia que nem imaginavam existir optaram por um acordo. Estão proibidos de mencionar o nome da faculdade e de outras 80 instituições. Fecha parênteses, enquanto Siri, originalmente formado em Arquitetura, aparece na porta do camarim com uma indisfarçável cara amassada.

Pouco depois quem surge é o produtor da Cia. chamando para a sessão de fotos. Todos vão ao palco e se enfiam entre as cortinas, enquanto canções do Padre Zezinho, escolhidas pelo próprio grupo como música ambiente, e os garçons aguardam a abertura das portas da casa. Vários cliques depois confessam orgulhosos que Bárbara Heliodora, respeitada crítica de teatro, os chamou de “chulos, grosseiros e politicamente incorretos”. Ainda querem colocar a frase como recomendação para algum futuro cartaz do grupo. “A gente respeita os clássicos, mas fazemos peças que tenham a ver ou que façam sentido para o nosso público. E o nosso texto fala deles”, e Jovane abre caminho para refletir sobre o duro ofício de comediante. Após a bola lançada para a grande área, Victor cabeceia: “As pessoas riem de si próprias através da gente. Somos a válvula de escape da sociedade. Levamos torta na cara pelo nosso público”.

Em espetáculos que combinam observação do cotidiano, crítica social e improviso, a Cia. Os Melhores do Mundo gosta de elencar uma ampla variedade de referências. Estão lá, piada após piada, figuras como Mel Brooks, Casseta & Planeta, Irmãos Marx, Woody Allen, Monty Python, Trapalhões (“Na época que o Didi tinha costeleta”, relembra Pipo com carinho) e o maior de todos, Chico Anísio (“Ele representa muito para gente, é o maior humorista brasileiro de todos os tempos e não é a toa que faz a voz de Deus em Hermanoteu”, é Pipo novamente).

Alheio a gêneros ou subgêneros humorísticos, Pipo chama para si a responsabilidade e assume que para o grupo “existem apenas dois tipos de comédia: a que é engraçada e a que não é”. Assim mesmo, sem rodeios, e faltando cerca de meia hora para o espetáculo ter início. Nada parece estudado nas falas do grupo e a paixão pelo teatro também soa intensa e sincera. “A gente sempre pensou no teatro pelo teatro e não como um meio para se chegar à televisão. O trabalho lá é que serve como um meio de chamar mais gente pro teatro, de popularizar nossas peças”, resume Victor para completar na mesma toada que “na TV é mais difícil fazer piada porque tem mais limites, tem departamento jurídico, porque vive de publicidade e ninguém quer desagradar ninguém. A gente entende isso. Agora, no teatro a gente faz a piada que quer, do jeito que quer e na hora que quiser”.

Essa liberdade os deixa particularmente suscetíveis ao patrulhamento do politicamente correto. “Isso mata a comédia porque, afinal de contas, não existe humor a favor de coisa alguma”, sentencia Jovane. Mas o que acha a menina do grupo? Aliás, Adriana, o que uma mulher como você faz entre esses sujeitos? “Foi acontecendo desse jeito. Mas não estou em todos as peças porque nesse mesmo período tive três filhos. O único problema de ser a mulher do grupo é que ouço muita barbaridade. Eles até aliviam quando vêem que estou chegando. Mas ultimamente nem isso mais acontece. Ah, e nunca tive problemas com o tipo de humor que a gente faz”. Adriana, que já trabalhou em shoppings e bancos, orgulha-se dos laços de amizade, do respeito e do humor rápido que o grupo criou e cultivou em solo brasiliense para exportação nacional. Faltam dez minutos e todos estão vestidos, maquiados e com os microfones ligados. Um pouco antes do contra-regra avisar que está na hora, Adriana é acometida por um daqueles lampejos de mãe. “Desculpa, acho que a gente falou muito, né? É que é tão raro a gente dar entrevista. É verdade! Não estamos acostumados”, e sorri ligeiramente envergonhada. “Olha, ninguém sabe o trabalho que dá”, desabafa antes de sair pela porta rumo ao palco. Não faz nem cinco minutos e já se ouvem as primeiras gargalhadas. A noite é uma comédia e está apenas começando.

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