Adriano Siri

Adriano Siri
  • icone_facebook.png
close.png

Carioca 26/07/68

Entrevista com Adriano Siri 07/08/2012

Ricardo Pipo interpreta Hermanoteu. Qual é o seu papel no espetáculo?

Olha, nesse espetáculo o Pipo faz o Hermanoteu e todos os outros atores, nós cinco outros, fazemos vários personagens. Então a gente fica se revezando e construindo os personagens que dão a linha de sustentação da história para que o Pipo conduza o Hermanoteu até o final do espetáculo. Então na verdade eu faço uns sete ou oito personagens.

Existe algum que você acha mais interessante ou mais legal de fazer?

Eu faço alguns personagens legais. Digamos que eu encerro com o Jesus Cristo. O Diabo é um personagem que o Hermanoteu encontra ao longo de todo o espetáculo, o Jesus Cristo ele encontra só no fim da peça. Jesus Cristo e o Diabo fazem um diálogo importante no final, bastante definitivo para encerrar a trama, junto com o Hermanoteu. Esse talvez seja o mais importante, mas ao longo do espetáculo outros personagens vão surgindo comigo.

Como foi a concepção do espetáculo? De onde surgiu o personagem Hermanoteu?

Esse espetáculo teve a sua estréia na verdade em 1995. Ele foi encenado algumas vezes em Brasília, até que em 2000 nós praticamente reescrevemos todo o espetáculo com novos personagens, uma nova idéia. Manteve-se o nome, o personagem principal, um ou outro figurino e depois disso a gente refez praticamente a peça. De lá para cá a gente encenou algumas vezes, e depois que uma cena dele bastante divertida foi parar na Internet, a mesma história que se repetiu com o Joseph Klimber do “Notícias Populares”, esse espetáculo foi muito exigido pelo público. Nós começamos a remontar o espetáculo com força total. O espetáculo em si é na verdade uma sátira a filmes bíblicos do Antigo Testamento. Ele não pretende ser uma crítica à religião, nada disso. Na verdade ele faz uma sátira, uma brincadeira com filmes bíblicos como “Os Dez Mandamentos”, aqueles grandes clássicos do Antigo Testamento. Peregrinos, personagens históricos surgem ao longo da trama. É um espetáculo nonsense. Assim como todos os espetáculos do grupo, esse é um onde a gente busca oportunidades de estar criticando ou comentando o dia-a-dia da nossa sociedade, da nossa vida.

A comédia é situada em um cenário épico. No entanto, faz várias citações da atualidade. Como isso é representado no espetáculo?

Aparece a todo o momento. Logo nos primeiros minutos, a personagem da Adriana (Adriana Nunes) que é a Micalatéia, já faz referências à cidade, onde quer que a gente esteja. Logo depois eu entro como um banqueiro. O Hermanoteu precisa de dinheiro emprestado para fazer uma viagem e eu entro, fazendo esse banqueiro. É um banqueiro altamente dentro dos padrões atuais, as pessoas se sentem muito familiarizadas com o texto. Ao longo de todo o espetáculo existem referências à citações da política, do nosso cotidiano, a uma celebridade ou outra. É uma forma que a gente descobriu de trazer o público para dentro da peça. Fica atual, contemporâneo.

Há então alguma mudança de acordo com cada cidade em que vocês apresentam?

Sim. Em cada cidade que a gente chega, fazemos uma pequena pesquisa sobre algumas características ou locais característicos. Personagens da política ou do cenário cultural, da high society. A gente sempre se informa sobre a cidade onde a gente está, quer seja uma capital ou uma cidade do interior. Sempre existe uma referência para a gente colocar.

Aqui de Curitiba já tem alguma coisa pronta que você pode adiantar?

Ainda não, mas eu tenho certeza que vai ter. A gente acabou de voltar de Campo Grande, estivemos em Teresina e onde quer que a gente esteja isso é atualizado, revisto, e normalmente explosivo.

Vocês fogem do roteiro fixo? Há alguma interação com a platéia ou espaço para improvisação?

Espaço para improvisação está sempre aberto. Esta foi a base do grupo, sempre foi. Interação com a platéia, não. A improvisação existe porque a gente se permite improvisar. Agora, ninguém chama ninguém, o público é espectador, não é um espetáculo interativo.

Você falou sobre a Internet, e boa parte da divulgação do grupo foi por meio destes vídeos que entraram no YouTube. O que você acha desse auxílio da Internet na divulgação?

Eu acho que nós talvez hoje sejamos o maior exemplo de um novo momento nesse tipo de divulgação. O grupo trabalha há aproximadamente 15 anos, eu fui o último a entrar, entrei há 13. Graças a muito trabalho nós sempre tivemos muito sucesso, mas um sucesso proporcional ao teatro, que já é difícil. A força do teatro é presente, mas não quer dizer que as pessoas vivam efetivamente de teatro. Nós, ao longo destes últimos anos, realmente sempre vivemos de teatro. O que aconteceu foi que a Internet, por ser esse veículo absolutamente livre e democrático, ou seja, nada que você assiste é imposto. O que você assiste é porque gostou, e o que não gosta acaba, morre no seu computador. Pelo menos do seu, não segue. Se você ver alguma coisa realmente divertida, você passa adiante. Isso nos ajudou imensamente, a companhia hoje é uma banda de rock, no sentido em que as pessoas vêem uma música e querem ver ao vivo, as pessoas precisam ver ao vivo. Isso nos ajudou muito. Eu acho que hoje nós estamos experimentando uma oportunidade muito positiva para a gente. Mas até certo ponto é nova. O público por exemplo em Brasília há 20 anos atrás, qualquer espetáculo que viesse à Brasília de um global, lotava. Há 20 anos atrás, quando um de nós falava que queria comprar um carro zero, ia para Brasília. Era a capital federal, um teatro de 1300 lugares, muito bem equipado, um público inteligente, culto. Chegava, e lotava. Hoje, não é assim. Hoje, o fato da pessoa aparecer na televisão ou ser famosa não significa que ela proporciona um bom espetáculo para o público. Pelo menos alguns lugares já sabem disso. Em Brasília, isso mudou. Hoje é um espetáculo às vezes de um artista cult, é lotado. Mas às vezes você vai de um cara famoso, na mídia, com veiculação popular, e nem sempre é lotado. Eu acho que para a gente a Internet favoreceu em função do grupo ser um grupo de qualidade, pelo menos para quem espera o humor, para quem tem essa expectativa de um espetáculo.

Inclusive, como surgiu o nome “Os Melhores do Mundo”?

Este nome é uma piada. Em 1995 a gente se chamava “A Culpa é da Mãe”, e o nosso produtor saiu da companhia, e o nome também era dele. Nòs não nos sentimos à vontade para seguir com o nome, e colocamos este novo nome como uma brincadeira. Nós tínhamos feito uma viagem para a Europa, e aí a gente viu um monte de coisas legais. “Os melhores do Mundo” acabou sendo uma piada. A gente falou, ‘olha, a gente podia aproveitar. Quando alguma coisa mundial estiver acontecendo, vão estar usando esse nome. Os melhores do mundo vão fazer não sei o quê, os melhores do mundo vão estar competindo’. Enfim, era uma brincadeira, e óbvio, uma graça com a presunção de ser bom. Ninguém se acha o melhor do mundo, poucas pessoas podem se achar. Então nós fizemos isso. Hoje, é engraçado, é um nome. Acho que o público já absorveu isso, é um nome como ‘Paralamas do Sucesso’, que virou um nome. Hoje as pessoas não pensam nisso como o que quer dizer o nome. As pessoas já associam ao grupo. Hoje eu estou começando a sentir isso. Era o que a gente queria. A gente não queria trabalhar uma peça, já que é um grupo de repertório. Foi importante um nome que começasse a ser absorvido porque hoje é mais importante lançar e mostrar o grupo do que um personagem, ou uma peça, ou uma pessoa. Hoje estar falando do grupo é mais importante porque daqui a pouco a gente pode voltar para Curitiba com outro espetáculo, e é importante que as pessoas saibam que são “Os Melhores do Mundo”, e não a peça tal ou o diretor tal.

Você tem um currículo bastante diversificado. É formado em arquitetura pela UnB, já foi cantor e saxofonista, e fez participações em Malhação. Como foi a transição de uma profissão para a outra?

Na verdade, eu me formei em arquitetura, sou arquiteto. Exerci muito tempo. Hoje não tenho tempo de exercer porque isso requer estudo constante, você tem que estar por dentro de tendências, tem que ter uma paciência “de jó” com cliente. E isso tudo eu abri mão (aos risos). Realmente eu me dediquei ao teatro.

Hoje você vive de teatro?

Sim, desde que a gente entrou no grupo. Hoje, todos somos contratados pela Rede Globo. Em 99, no meu primeiro contrato com a Globo, fiz Malhação, depois com o Jovane e o Welder nós fizemos os vilões de uma série da Angélica. Fizemos trabalhos que não nos deixaram conhecidos, o que eu acho até bom. Hoje nosso reconhecimento, especialmente no meu caso, é muito em relação ao teatro. O Welder, a Adriana e o Jovane já tem mais cara de televisão hoje em dia. Aparecem como Jajá e Juju, o Zeca Pimenteira do Zorra Total. Agora, nós outros não. Nosso contrato está acabando em sete dias.

Deve ser renovado?

Individualmente. Eu acho que só o Jovane tem interesse em renovar, o resto não tem. Na verdade existe um pequeno choque de horários e compromissos que hoje a gente está evitando por conta de todos os compromissos que a gente tem com o teatro.

Todos vocês moram em Brasília?

Sim. Todo o fim de semana vamos para a cidade em que estamos em cartaz, e voltamos na segunda.

O grupo começou em Brasília, e você é do Rio de Janeiro. Quando e qual foi o motivo da mudança?

Como a maioria das crianças e adolescentes. Em 80 eu tinha 11 anos, o meu pai saiu do Rio e surgiu uma oportunidade para ele em Brasília e ele veio com a minha mãe e meus irmãos, e desde então moramos aqui. Eu especialmente me considero muito mais brasiliense do que carioca. Vivo muito mais aqui e gosto muito de viver aqui.

Qual é a sua esquete ou personagem do grupo é o seu favorito?

As pessoas me reconhecem muito por um personagem que tem no DVD do “Notícias Populares”, que é o quadro do Saraiva. É uma dupla de policiais, e não é necessariamente o que eu mais gosto, mas talvez seja a personagem ou quadro com o qual o público mais se identifica comigo. Inclusive no Hermanoteu existe o personagem Saraiva. Tem tal força que em uma das cenas ele é citado, como um sósia de eu mesmo (risos).

Que humorista você mais admira ou que gostaria de ser?

Olha, que eu gostaria de ser, não. Eu acho que existem algumas pessoas no cenário nacional que são muito especiais. Eu acho que aqui no Brasil tem alguns artistas que dominam bem a interpretação, tanto que transitam do cômico para o dramático muito bem, como por exemplo Marco Nanini. Eu acho que ele talvez seja o maior ator hoje que tenha essa característica, que eu acho realmente sensacional. Gosto muito do Pedro Cardoso, gosto de outras pessoas do cenário humorístico. Como referência tem um monte de exemplos, tem Trapalhões, tem Chico Anysio. Inclusive ele faz uma participação em off neste espetáculo, que eu gravei com ele em 2000. Os Cassetas são muito bons, são amigos nossos também. São uma referência para a formação humorística. Eles são dez anos mais velhos que a gente, então a gente se inspirou muito. Em Curitiba nós temos um querido amigo que é o Diogo Portugal, que tem divulgado muito a coisa do stand-up comedy, e não só divulgado como tem colhido bons frutos. Casas lotas, reconhecimento. Sempre nos tratou como referência e que nós também o temos como uma referência, um cara muito inteligente e talentoso.

Qual personagem você gostaria de ter vivido?

Eu já faço Jesus Cristo, não preciso de mais nada (aos risos).

O que te faz rir?

Eu acho que o que me faz rir, que é o que alimenta a nossa companhia é o dia-a-dia. Abrir o jornal e rir, viver e rir. Eu sou uma pessoa me faço feliz. Eu estava almoçando com os meus pais na casa deles, estou com os meus filhos, era para ser um dia que eu ia passar a tarde aqui. Mas eu vou ter que sair daqui, ir na Polícia Civil e no Setor de Oficinas aqui em Brasília porque ontem me roubaram os dois retrovisores do carro. Então, eu me faço rir dessas coisas. Se aconteceu isso é por algum motivo. Eu tento encontrar isso no dia-a-dia, disso eu ainda não tinha conseguido rir mas estou rindo agora. Então a gente tem que encontrar humor no dia-a-dia. Sabendo focar, a gente faz muita coisa divertida.

Qual é o seu “calcanhar de Aquiles”?

Minha família. Não me tirem de perto deles. Não me privem deles. Do resto eu me viro.

O que na sua vida você faria novamente e o que nunca mais faria?

Se tem, eu não me lembro (risos). Não sei, acho que não. Está tudo dando certo. É claro que isso é muito profundo (risos), mas eu acho que agora, eu estou fazendo 30 anos daqui a um mês, eu aprendi a ter um pouco mais de calma. Digamos que se eu tivesse que refazer algumas coisas eu refaria com um pouquinho mais calma e bom humor.

Vamos fazer uma brincadeira. Eu gostaria de saber tudo o que você aprendeu com cada uma das suas profissões.

Como arquiteto, o que você aprendeu?

As pessoas me perguntando se teria sido melhor ter feito artes cênicas ao invés de arquitetura, uma vez que eu sou ator. E eu digo que não, porque eu acho que arquitetura me deu uma visão humanística enorme. Eu aprendi a observar espacialmente tudo. Eu acho que as pessoas, as coisas, os lugares. A arquitetura me deu uma visão tridimensional do mundo.

E como saxofonista e cantor?

Eu aprendi a ser mais alegre. Música é alegria, música é vida. A Adriana costuma dizer para mim que eu só sou ator porque não sou músico. Eu não sou daqueles que faz tudo com música, toma banho com música, escreve com música. Mas a música tem um lugar realmente especial na minha vida. Momentos de tranqüilidade, momentos de meditação, momentos meus que eu tenho algum tipo de música, isso é espetacular. Então a música me ensinou a ser mais feliz.

O que você ainda pretende conquistar na vida?

Eu acho que a nossa carreira é uma carreira tão instável que a única coisa que eu desejaria é conseguir viver disso pelos próximos 20 anos. Eu to cada vez achando isso mais possível porque o grupo é um grupo coeso, feliz, amigo, e o público tem admirado o nosso trabalho, tem apostado e acreditado na gente. Então se tem alguma coisa que eu posso esperar da carreira é que ela continue acreditando em mim, porque eu acredito nela.

Grupo
  • adriana
  • adriano
  • jovane
  • pipo
  • victor
  • welder
  • mm
1986/2014 :: Os Melhores do Mundo :: Todos Direitos Reservados ©